sexta-feira, 25 de junho de 2010

Crônicas antigas


A tecnologia nos traz imensos desfios ao mesmo tempo que nos oferece oportunidades. A primeira vez que me descreveram Blogs e fui ver o que era fiquei com a sensação estranha de que estes espaços públicos eram em grande medida espaços de "vouier", a apresentação em froam de diário me deixou surpresa e irritada, passei a me perguntar porque tornar pública desta forma as vidas pessoais, porque a solidão geraria uma necessidade desta ordem? Rodeados de "amigos" se tornava necessário "dizer" para eventualmente receber um feedback!?

Com toda a franqueza não sei se é assim... o que eu vejo entretanto é uma oportunidade de compartilhar por isso enquanto vou me familiarizando com este novo meio resolvi divulagar algumas coisas antigas públicadas no Pinhel Falcão (Jornal da cidade de Pinhel em Portugal com tiragem quinzenal e que na realidade se encontra na sua terceira tiragem desde que foi criado no início do século XX).


O que se segue foi a primeira crônica escrita em Sobral, Ceará, depois de minha chegada.

Naquela época este artigo foi enviado pelo correio...


Para o Pinhel Falcão
Cartas Sobralenses :

Quando cheguei a Pinhel era comum me perguntarem “ a quem pertencia ” isso se devia a uma necessidade imediata da sociedade em encontrar um elo de ligação entre o indivíduo recém chegado e os habitantes locais, isto também atendia a uma segunda questão: conhecer e avaliar as motivações para que o indivíduo ali permanecesse ou não. Isto foi há oito anos, hoje me encontro mais uma vez em posição de ser indagada a cerca de minha origem. O lugar onde vim morar ao contrário de Pinhel, não está intimamente relacionada a minha história pessoal nem tão pouco familiar .
Sobral em pleno Vale do Acaraú, Ceará , Brasil, é também ao pé da Serra, não a da Estrela nem da Marofa mas a da Meruoca. Dentro dos padrões Brasileiros esta é uma cidade pequena, 180 mil habitantes, aqui há todas as infra-estruturas para atender a região apesar de também se encontrarem muitas carências. A Universidade Estadual do Vale do Acaraú (U.V.A.) conta com quase oito mil alunos e setecentos e quarenta professores Mestres e Doutores, distribuídos entre as áreas Tecnológicas , da Saúde , Contábeis e Humanidades. Há três jornais na cidade sendo que dois são diários e um semanário além de uma rádio local mas não são essas as semelhanças com Pinhel.
Outro dia, andando pelas ruas no centro da cidade ( o que corresponde a nossa Rua Direita e ao Mercado) percebi que guardando as devidas proporções , aqui todos se conhecem. As notícias se espalham, não de café em café, mas de praça em praça, há, é claro, um centro propulsor das novidades, o “ Beco do Cotovelo”, uma espécie de nervo central da agitação diária da cidade.
Ao contrário de Pinhel, onde vemos cada vez mais os jovens a fugir de suas ruas, aqui as praças são tomados por grupos alegres de meninas e rapazes a passear ao sabor da brisa nocturna ou a namorarem nos bancos das praças enquanto os mais velhos ficam sentados a conversa a porta de casa.
A história infelizmente nem sempre é lição aprendida, D. Afonso Arraies quis tornar Pinhel em uma imponente cidade, palco para o exercício de seu prestígio e poder, talvez inspirado pelo exemplo de Dom Diogo de Sousa, Bispo de Braga do início do século XVI, seu sonho foi tolhido. Magoado, o Bispo D. Afonso Arraies deixa Pinhel pela Guarda e mais tarde a Corte. Sobral teve também um visionário um século depois, D. José, a cidade abriga a memória viva do fazer deste homem que como alguns de nossos religiosos tiveram o privilégio de estudar em Roma e lá ser ordenado. Se é verdade que o passado se repete, estamos na eminência de um revigorado surto de realizações para Sobral, enquanto Pinhel continuará a desafiar a persistência de seu prior.
Chegou nesta semana, (como eu) , a Sobral uma pessoa que ascendeu qual chama a esperança em toda a cidade e arredores. Um homem novo que transmite um quê de soberana-humildade, alguém que quando caminha , o faz com um misto de missão e dever, que não parece olhar para o todo mas para cada um. A pessoa que descrevo é o Bispo Coadjutor de Sobral D. Aldo di Cillo Pagotto, da Ordem do Santíssimo Sacramento , que tomou posse na Missa Solene de 12 de Dezembro na Catedral de Sobral.
Sobral muito tem que me lembre Pinhel, e sinto saudade, ( sempre soube que este sentimento é um reconhecimento inquestionável de amor ), as pessoas prontas para nos ajudar, atenciosas de um modo especial que chego a ver nelas alguns queridos amigos que aí deixei. Com certeza hei de encontrar, como D. Aldo, resistência, até mesmo inimizade e antipatias, mas é disto que é feita a humanidade, pequenas e grandes diferenças que são em fim os desafios que Deus põe em nossas trajectórias e com elas nos ajuda a tornarmos seres mais persistentes e revigorados na fé.
Na vida, cada um de nós tem uma missão como peregrino reconhecer, aceitar e realiza-la talvez seja a grande provação. O caminho é feito de momentos de partida que só não nos dilaceram porque há a benesse e a esperança na chegada.
A esperança, este sentimento sublime que nasce em cada um de nós, fruto da fé que revigorada no presente cria o amanhã. D. Aldo escolheu como seu lema “Unum Corpus + Unus Spiritus ” (Ef. 4,4) - (Há um só corpo um só espirito), ele teve o privilégio de assistir durante a cerimónia de sua posse, a força desta verdade, tão presente nas comunidades paleocristãs. Reunidas como um só corpo a Igreja ali presente viu todo o aparato de luzes e microfones ser substituído pelo silêncio e um banho intenso de luar. Um canto de Louvor a Deus espalhou-se como uma onda tornando ainda mais solene aquele acto que congregou na praça em frente a Sé de Sobral alguns milhares de fieis vindos das povoações mais distantes. A esperança nesta cidade não é uma ilusão, é um sentimento palpável que se materializa na vontade de ver momentos do passado serem superados pela realidade: como Pinhel, Sobral teve um passado glorioso que ainda está vivo na memória de muitos, testemunhado pelos casarios que se vêm por toda a parte. Sobral tem encontrado filhos, uns adoptivos outros não, que a têm feito crescer, movidos por uma sublime força de vontade e abnegação em prol de uma causa comum: a solidariedade para com o irmão.
Naquela praça, vendo e ouvindo as pessoas a minha volta neste momento tão diverso e tão comum, pensei em qual seria a minha missão, continuo com a pergunta, mas tive uma certeza, que este homem que chegou na mesma altura que eu, recebido com tanto júbilo e pompa tem uma tarefa árdua. Tal qual peregrino que em sua trajectória será contemplado pela bondade dos que o recebem, ele será exemplo e lição em cada um dos seus passos. Percebemos que há um tempo de buscar a Deus, há um milénio esta necessidade se realizou “cobrindo a terra com um manto branco de Igrejas”. Hoje só nos resta cobrir a terra com a luz que não se apaga.
Sobral, 15 de Dezembro de 1997.
Regina Celi Fonseca Raick

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