Naquela época este artigo foi enviado pelo correio...
Para o Pinhel Falcão
Cartas Sobralenses :
Quando cheguei a Pinhel era comum me perguntarem “ a quem pertencia ” isso se devia a uma necessidade imediata da sociedade em encontrar um elo de ligação entre o indivíduo recém chegado e os habitantes locais, isto também atendia a uma segunda questão: conhecer e avaliar as motivações para que o indivíduo ali permanecesse ou não. Isto foi há oito anos, hoje me encontro mais uma vez em posição de ser indagada a cerca de minha origem. O lugar onde vim morar ao contrário de Pinhel, não está intimamente relacionada a minha história pessoal nem tão pouco familiar .
Sobral em pleno Vale do Acaraú, Ceará , Brasil, é também ao pé da Serra, não a da Estrela nem da Marofa mas a da Meruoca. Dentro dos padrões Brasileiros esta é uma cidade pequena, 180 mil habitantes, aqui há todas as infra-estruturas para atender a região apesar de também se encontrarem muitas carências. A Universidade Estadual do Vale do Acaraú (U.V.A.) conta com quase oito mil alunos e setecentos e quarenta professores Mestres e Doutores, distribuídos entre as áreas Tecnológicas , da Saúde , Contábeis e Humanidades. Há três jornais na cidade sendo que dois são diários e um semanário além de uma rádio local mas não são essas as semelhanças com Pinhel.
Outro dia, andando pelas ruas no centro da cidade ( o que corresponde a nossa Rua Direita e ao Mercado) percebi que guardando as devidas proporções , aqui todos se conhecem. As notícias se espalham, não de café em café, mas de praça em praça, há, é claro, um centro propulsor das novidades, o “ Beco do Cotovelo”, uma espécie de nervo central da agitação diária da cidade.
Ao contrário de Pinhel, onde vemos cada vez mais os jovens a fugir de suas ruas, aqui as praças são tomados por grupos alegres de meninas e rapazes a passear ao sabor da brisa nocturna ou a namorarem nos bancos das praças enquanto os mais velhos ficam sentados a conversa a porta de casa.
A história infelizmente nem sempre é lição aprendida, D. Afonso Arraies quis tornar Pinhel em uma imponente cidade, palco para o exercício de seu prestígio e poder, talvez inspirado pelo exemplo de Dom Diogo de Sousa, Bispo de Braga do início do século XVI, seu sonho foi tolhido. Magoado, o Bispo D. Afonso Arraies deixa Pinhel pela Guarda e mais tarde a Corte. Sobral teve também um visionário um século depois, D. José, a cidade abriga a memória viva do fazer deste homem que como alguns de nossos religiosos tiveram o privilégio de estudar em Roma e lá ser ordenado. Se é verdade que o passado se repete, estamos na eminência de um revigorado surto de realizações para Sobral, enquanto Pinhel continuará a desafiar a persistência de seu prior.
Chegou nesta semana, (como eu) , a Sobral uma pessoa que ascendeu qual chama a esperança em toda a cidade e arredores. Um homem novo que transmite um quê de soberana-humildade, alguém que quando caminha , o faz com um misto de missão e dever, que não parece olhar para o todo mas para cada um. A pessoa que descrevo é o Bispo Coadjutor de Sobral D. Aldo di Cillo Pagotto, da Ordem do Santíssimo Sacramento , que tomou posse na Missa Solene de 12 de Dezembro na Catedral de Sobral.
Sobral muito tem que me lembre Pinhel, e sinto saudade, ( sempre soube que este sentimento é um reconhecimento inquestionável de amor ), as pessoas prontas para nos ajudar, atenciosas de um modo especial que chego a ver nelas alguns queridos amigos que aí deixei. Com certeza hei de encontrar, como D. Aldo, resistência, até mesmo inimizade e antipatias, mas é disto que é feita a humanidade, pequenas e grandes diferenças que são em fim os desafios que Deus põe em nossas trajectórias e com elas nos ajuda a tornarmos seres mais persistentes e revigorados na fé.
Na vida, cada um de nós tem uma missão como peregrino reconhecer, aceitar e realiza-la talvez seja a grande provação. O caminho é feito de momentos de partida que só não nos dilaceram porque há a benesse e a esperança na chegada.
A esperança, este sentimento sublime que nasce em cada um de nós, fruto da fé que revigorada no presente cria o amanhã. D. Aldo escolheu como seu lema “Unum Corpus + Unus Spiritus ” (Ef. 4,4) - (Há um só corpo um só espirito), ele teve o privilégio de assistir durante a cerimónia de sua posse, a força desta verdade, tão presente nas comunidades paleocristãs. Reunidas como um só corpo a Igreja ali presente viu todo o aparato de luzes e microfones ser substituído pelo silêncio e um banho intenso de luar. Um canto de Louvor a Deus espalhou-se como uma onda tornando ainda mais solene aquele acto que congregou na praça em frente a Sé de Sobral alguns milhares de fieis vindos das povoações mais distantes. A esperança nesta cidade não é uma ilusão, é um sentimento palpável que se materializa na vontade de ver momentos do passado serem superados pela realidade: como Pinhel, Sobral teve um passado glorioso que ainda está vivo na memória de muitos, testemunhado pelos casarios que se vêm por toda a parte. Sobral tem encontrado filhos, uns adoptivos outros não, que a têm feito crescer, movidos por uma sublime força de vontade e abnegação em prol de uma causa comum: a solidariedade para com o irmão.
Naquela praça, vendo e ouvindo as pessoas a minha volta neste momento tão diverso e tão comum, pensei em qual seria a minha missão, continuo com a pergunta, mas tive uma certeza, que este homem que chegou na mesma altura que eu, recebido com tanto júbilo e pompa tem uma tarefa árdua. Tal qual peregrino que em sua trajectória será contemplado pela bondade dos que o recebem, ele será exemplo e lição em cada um dos seus passos. Percebemos que há um tempo de buscar a Deus, há um milénio esta necessidade se realizou “cobrindo a terra com um manto branco de Igrejas”. Hoje só nos resta cobrir a terra com a luz que não se apaga.
Sobral, 15 de Dezembro de 1997.
Regina Celi Fonseca Raick
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